DESCONSTRUÇÃO 2009

Espaço Cultural BRDE / Curitiba – Brasil

Em um mundo em que a informação ultrapassa limites é de crucial importância prestarmos muita atenção à veloz assimilação formal, estilística e pictórica que vem sendo apresentada por parte de alguns talentosos novos artistas visuais que surgem no meio artístico. É um caso destacado o de André Mendes.

Para mim, um dos aspectos mais interessantes de seu trabalho, quando visto integralmente, é a despretensiosa afirmação da tradição nascida genuinamente de uma espécie de liberdade quase sarcástica do artista na direção e no uso hábil do ofício de pintor e desenhista. Para ter uma idéia da impressionante habilidade de André, basta lembrar seus mais de vinte murais públicos e privados, executados com a competência de um Poty, em cerâmica e técnicas industriais novas que ele mesmo cria e desenvolve. Perceptivo e receptivo à massificada codificação de estilos e métodos específicos que encontramos e podemos dispor do mundo da pintura hoje, André tem uma imensa facilidade com o desenho e com a manipulação e organização de elementos compositivos, o que a meu ver, lhe permite uma espécie de uso “deliberado” da linguagem pictórica, um procedimento natural que se mostra no limite entre o compromisso da pesquisa e a experiência estética “pura”.

Objeto de necessária e particular atenção ao eventual pesquisador do trabalho de André Mendes é o caráter da trajetória que ele vem desenvolvendo como profissional. Vindo de uma formação em design gráfico, ao mesmo tempo em que participa do talentoso e conhecido grupo curitibano de artistas Interlux Arte Livre, onde se envolve experimentalmente em ações das mais variadas espécies, André mantém por outro lado, uma versátil proximidade com a obra de Poty Lazarotto, com o trabalho do pintor Jair Mendes e com a pintura de mestres e artistas estruturais da história da arte moderna, como Picasso, Matisse, Miró e Tápies. Considerando sua idade, e seu percurso de trabalho ainda recente e em plena formação, é impressionante observar a capacidade de percepção visual – o chamado “olho” para a pintura – que André já adquiriu. Seu olhar conhece e reconhece muito bem boa parte da extensa tradição pictórica moderna, inclusive provocativamente melhor que muitos artistas experientes e reconhecidos no meio artístico. A sua proximidade com a arte desde a infância, ou talvez os seus períodos de residência em vários países do exterior, como Espanha, França e Australia, ou ainda as viajens à Europa onde conheceu ao vivo, por exemplo, a obra de Tápies, que é um dos artistas que mais lhe agrada atualmente, devem sem dúvida ter e estar lhe contribuindo muito favoravelmente na sua formação como artista.

Mas André, contudo, não é, a julgar por suas habilidades e facilidades com a forma – para nossa sorte como expectadores – um artista cômodo, pelo contrário, ele é inquieto, ativo, apreensivo, qualidades, a meu ver, que todo bom artista tem. E por estar em pleno amadurecimento dessas qualidades e conseguir perceber bem isso, apresenta trabalhos específicos que começam a significar para ele uma espécie de libertação formal, o que ocasionalmente vem chamando de desconstrução. Há nestes trabalhos, relativamente à sua produção anterior, uma certa variedade de caminhos, uma busca natural ainda aberta com relação ao direcionamento da pesquisa, mas há também uma convicta e corajosa decisão em buscar uma problematização formal que consiga desequilibrar a ordem na habilidosa resolução de seus trabalhos anteriores determinada pelo seu domínio técnico e formal que agora começa a identificar – o que mostra seu crescente e veloz amadurecimento – como um desafio a ser enfrentado.

No impasse entre o equilíbrio e o abandono, na fixação e no rompimento dos limites do quadrante, na disposição e indisposição das formas e cores, os trabalhos recentes de André vêm nos apresentando o caráter de pesquisa essencial a toda verdadeira obra de um íntegro artista, e a meu ver, não só vale muitíssimo à pena apreciar sua arte e seu talento, como nos enobrece, como expectadores, o seu merecido reconhecimento.

Tony Camargo / artista plástico