Espacial

André Mendes transformou este espaço em seu atelier logo após o encerramento da exposição Deforma, no final do ano passado, que reuniu artistas plásticos, ilustradores e designers e se propunha a desmistificar tais aproximações. Sabendo que não poderia permanecer por muito tempo no local transformou-o numa residência artística por seis meses, intensificando sua produção e direcionando-a ao que agora se configura como essa mostra individual, Espacial.

O trabalho de André Mendes encerra aqui um ciclo de produção. A sua linguagem pictórica transforma a concepção de desenho em meio expressivo, indo dos gestos rápidos contínuos que o desenho permite, transpondo-os às telas por suas pinceladas, até sua dimensão mais ampla – o desenho como projeto. André absorveu de seus períodos de estudos em Barcelona as noções que colocam o dibujo (esboço) e diseño (projeto) como parte de um mesmo procedimento artístico primordial – finalizar os trabalhos mantendo as condições de irrealizado, com aspectos de esboço e caráter de projeto, mas que nos sugere um movimento perpétuo.

O espaço tomado a partir dos pigmentos em resina parece querer mergulhar tudo ao seu redor, como uma pintura tóxica que flerta com a tridimensionalidade escultórica e tudo quer tocar, invadir, sem limites de expansão. A saturação não é apenas saturação de cor, é saturação de caos – a resina mergulha sobre a tela e se expande com o acaso do caos, que o pintor procura controlar, mesmo sabendo que seu controle reside entre uma ponta e outra do impacto gerado pela resina com a superfície do tecido da tela. André inclui o acaso no entre a superfície da tela e o gesto pictórico.

As pinturas colocam o espectador diante do material saturado e aparentemente maleável, sugerindo movimento, mas um movimento impossível – a resina catalisada já não mais se movimentará. Os campos de cores, já vibráteis em suas pinturas que seguem as lógicas gestuais do desenho, se transformam no próprio chassis dos trabalhos. O artista não sente mais a necessidade de desaparecer com a tela, como em trabalhos anteriores com o mesmo processo de pigmento e resina, mas evidencia seu transbordamento. Em expansão contínua, são imersões na tela que carregam o desejo de transbordar também para as outras superfícies do mundo ao redor – escultórico e arquitetônico.

Nesta exposição vemos também um caminho de trabalhos que o levam para fora do delineamento da tela, ampliando-se às paredes do próprio atelier, que realizam o desejo de imergir o que está ao seu redor, por não haver mais ao redor, e chegam às maquetes – transbordamentos em potencial que se realizam também enquanto projeto e provocam o espectador a se ver novamente imerso, em distintas situações, tal como se vê na sala anterior, tomado por superfícies e se tornando com elas parte do trabalho.

 

Arthur do Carmo